14/08/2009

A ARTE DE FAZER CANTAR O PONTO DE APOIO

"A arquitetura é uma ciência, surgindo de muitas outras, e adornada com muitos e variados ensinamentos: pela ajuda dos quais um julgamento é formado daqueles trabalhos que são o resultado das outras artes."
Marco Vitrúvio Polião


Gottfried Böhm - Construção na cidade de Köln, Alemanha.

Em uma palestra para alunos de uma universidade na América, Sammy Cahn, compositor musical, disse: “Não há carreira mais gratificante, esteticamente e financeiramente do que a de um compositor bem-sucedido”. Imediatamente um rapaz da platéia o perguntou: “Sr. Cahn, estou estudando arquitetura. O que há de errado com um arquiteto bem-sucedido?” Cahn respondeu: “Nada, mas quem anda na rua cantarolando um prédio?”.

Fora toda graciosidade que se encontra na resposta desse grande compositor a um estudante de arquitetura, nós podemos ver o quanto cada arte fala sua própria linguagem e se autovaloriza. Mas, em se tratando da arquitetura, e sem querer parecer excêntrico demais, creio que o trato em relação às outras artes deva ser compreendido sob a importância que existe dentro da arquitetura do conhecimento e, por que não, do domínio das outras artes: Arquitetura também é música, pintura, escultura, poesia e movimento.
Por isso muitos poetas afirmam que um edifício “canta”, “dialoga”, “conversa”, “chora” ou “ri”. Toda esta expressão poética é própria da arquitetura e no que diz r
espeito à manipulação científica da matéria em espaço humano, restrita unicamente a ela.
“Fazer cantar o ponto de apoio” é uma expressão poética sobre uma ciência (arquitetura) que toma da música o conhecimento necessário para sua atividade. Da mesma forma, “o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz”, ambas atribuídas a Le Corbusier, retira da escultura sua inspiração criativa.
Esse legado da ciência/arte chamada Arquitetura jamais será superado por qualquer outra manifestação da criação humana, justamente por se tratar de algo que está na base da nossa necessidade de edificar e transmitir através dessa edificaç
ão os diversos aspectos e nuances da civilização em que vivemos.

"A arquitetura é a fisionomia das nações"
Marquês de Custine.

Richard Meier

"Arquitetura é música petrificada."
J.W. Goethe


Hani Rashid and Lise Anne Couture


"Arcos, pilastras e paredes encerravam o Homem no paraíso"

Oscar Niemeyer

14/03/2009

URBANISTAS... PRA QUE?

São diversos os elementos que juntos formam uma cidade. Ruas, avenidas, vielas, casas, prédios, praças, centros comerciais, aeroportos, hospitais, escolas, estações de ônibus, entre diversas outras coisas. Para um leigo, as maneiras como esses elementos vão parar num certo espaço e num lugar que ele chama de “cidade” ou de “bairro” pouco importa. Para um mero cidadão que vive numa cidade mais ou menos inconsciente de sua forma ou modus operandi, talvez o mais importante seja saber, por exemplo, como chegará ao trabalho e, depois do trabalho, em casa. Se uma avenida está “engarrafada”, talvez seja culpa do trânsito, da chuva, ou de algum inevitável choque entre automóveis. Se a rua enche depois da chuva a “culpa” é da chuva ou então da cidade que está “muito próxima do nível do mar”! Acaso se demore muito para chegar da periferia ao centro e do centro à periferia, se o fluxo das vias urbanas é lento e maçante, se há avenidas completamente desertas e outras demasiadamente trafegadas, a culpa é também da cidade, que “cresceu de forma desordenada”. Sabemos que todos estes problemas e também essas opiniões existem numa cidade como Belém. Mas as pessoas comuns, por uma questão de pura ignorância e interesse, desconhecem totalmente que por trás do crescimento orgânico de uma cidade (seja ordenado ou desordenado) há agentes que podem e devem regular todo o processo: Os administradores públicos, isto é, os prefeitos e governadores e seu séqüito de secretários.
Numa cidade grande como Belém, espera-se que esse secretariado seja formado por profissionais com nível superior e muito bem preparado para o gerenciamento da cidade. Por outro lado, no campo, no meio rural, na grande maioria das vezes, o grupo que assessora um prefeito é formado por gente da mais baixa formação profissional. Por hora não vou me deter nessa questão rural ou de cidades pequenas, que é tão infeliz e dramática quanto à questão da Grande Belém. Vou permanecer focalizado no âmbito da metrópole.
Desde que tomei consciência de cidadão, Belém é uma cidade problemática. Entram e saem prefeitos e a cidade continua apresentando problemas crônicos e agudos. Os diagnósticos são sempre os mesmos e parece não haver remédio que os resolvam a curto e médio prazo. Deixam tudo para o tal de “longo prazo”. Mas, enquanto as décadas escorrem “feito um rio que passou em minha rua”, o “longo prazo” parece significar uma eutanásia urbana! Não conseguir resolver os problemas de Belém está se tornando um paradigma.
Uma cidade que conta com dezenas de arquitetos e urbanistas devidamente diplomados, que é considerada pequena para os padrões de grandes metrópoles nacionais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, por exemplo, a incapacidade para conseguir um único método que seja possível resolver grande parte de seus problemas parece exigir mesmo uma eutanásia. Ou então deixar a moribunda agonizar anos a fio (sim, Belém agoniza).
Precisamos compreender que a questão é muito séria, pois somos urbanistas.
Devemos ter em mente que o Estado investiu muito dinheiro em nossa formação (digo, os que se formaram numa faculdade pública, mas isso não exime a responsabilidade dos formados no meio privado). Investiu e ainda investe muito dinheiro para manter uma faculdade de arquitetura e urbanismo pública. Se for uma excelência ou não em ensino, isto é irrelevante, a realidade é que ela já diplomou centenas. E em troca, o que nós arquitetos e urbanistas demos ao Estado? Pouco ou nada. Enquanto dezenas estão nesta noite sonhando com algum salão desses de decoração e arquitetura de coluna social, a cidade está pedindo socorro! A cidade está gritando: “urbanistas me ajudem!” Só que é mais fácil nossos colegas despertarem deste sonho por causa do mio do gato do que pelo grito de socorro da cidade. E a indiferença é a maior aliada à falta de desenvolvimento e planejamento urbano.
A maioria de nós arquitetos rasgamos ao meio o diploma e só penduramos na parede a parte “Arquiteto”, enquanto que a outra, “e Urbanista”, jogamos no lixo, ou então, no melhor dos casos, escondemos entre os documentos velhos. Alguns colegas estão certos que ao “urbanizar” um mísero condomínio, ou uma praça de alimentação de um Shopping Center, estão colocando em prática anos de formação em urbanismo. A meu ver, isso soa como pegar todos os anos de formação e toda a vasta teoria de física nuclear e desenvolver um foguetinho de São João!
Mesmo em aplicações tão irrisórias, devem-se prever as conseqüências: um ou dois bancos de praça colocados em uma rua exigem sólido conhecimento e habilidades em urbanismo e planejamento urbano. Seus dois banquinhos, por exemplo, podem suscitar a formação da “Associação dos idosos que usam os Banquinhos da Rua”. Ou talvez um grupo de prostitutas passe a utilizar os banquinhos durante a noite, atraindo uma movimentação extra de automóveis. Essa movimentação pode resultar em acidentes. Por causa das prostitutas, traficantes passem a freqüentar a área, deixando a “Associação dos idosos que usam os Banquinhos da Rua” revoltada. Os velhinhos que antes cuidavam do lugar passam a ignorá-lo e com isso, a degradação é inevitável.
Deixando um pouco as ironias de lado, e voltando ao assunto extremamente sério, gostaria de fazer um pequeno apelo. Um apelo não somente a ti ou a ele, mas a mim também, pois eu, na qualidade de profissional urbanista, também preciso me movimentar. Nós precisamos desenvolver uma forma de ajudar nossa cidade. A questão é crucial, por que não há outros profissionais capazes de fazê-lo senão nós! Mas também creio ser árdua a missão de começar a movimentar-se a partir da estaca zero. Precisamos de um “empurrãozinho”...
Esse “empurrãozinho” pode ser dado por uma prefeitura comprometida com o bem maior, por exemplo, ou por quaisquer outras instituições sensíveis aos problemas da urbanidade (entendam-se, caros leitores, “comprometimento” e “sensibilidade” com o sentido de responsabilidade). Creio que a Prefeitura de Belém poderia incentivar os urbanistas a elaborar programas de intervenção no meio urbano com uma freqüência muito maior do que estamos acostumados, pois dificilmente as soluções virão de uma única cabeça ( ou melhor, de uma única secretaria). Poderia incentivar a formação de grupos de estudo e pesquisa, de uma corrente de escritórios que dialoguem o urbano e a cidade e de urbanistas recém-formados com energia para explorar novas propostas e novos conceitos. Isso parece utópico, mas não é. O meio de tornar isso possível é através da subvenção. A prefeitura poderia subsidiar esses movimentos através de:
1 – Concursos de projetos elaborados para fins específicos;
2 – Premiações a propostas de intervenções de diversas naturezas, desde que voltadas às questões do desenvolvimento urbano;
3 – Subvenções a estúdios e/ou a profissionais autônomos comprometidos com a produção de pesquisas técnicas e cientificas na área de urbanismo, como consultoria direta às secretarias de urbanismo e planejamento urbano.
Esses tipos de subvenções para as áreas do urbanismo são utilizados em muitos países. Eles são utilizados na Holanda, por exemplo. Lá, os modelos de relações entre o Poder Público e os Arquitetos e Urbanistas são exemplares.
Para você ter uma idéia, se um jovem acaba de se formar e resolve montar um estúdio, o governo holandês, através do Instituto Holandês de Arquitetura, o NAI (Nederlands Architectuur Instituut), pode subsidiar esse estúdio por até sete anos. Durante esse período de subvenção estatal, o estúdio se comprometeria em oferecer certa quantidade de propostas e projetos para a infinidade de questões que assolam o espaço físico da Holanda. Neste mesmo país, as discussões sobre as intervenções são arrastadas até se atingir a unanimidade ( o chamado Modelo de Consenso, oriundo da cultura polder holandesa). Isso pode arrastar um processo de intervenção a um tempo maior do que o esperado, porém, pelo menos no que diz respeito ao incentivo estatal e aos processos de produção de projeto, não existe arbitrariedade em aplicações urbanísticas na Holanda.
Eu pergunto: Por que é tão difícil seguirmos tal modelo? Por questões financeiras, culturais? Ou não seria apenas um caso de falta de compromisso e vontade política?
Creio que tudo se trata apenas de uma decisão e compromisso do poder publico. Gente pra pensar e realizar propostas tem de sobra. O que não existe é parceria e nem incentivos. Temos doutores e mestres em urbanismo e muitos intelectuais também. Precisamos criar e desenvolver nossos modelos de discussão e propostas para o desenvolvimento da cidade e também do estado. Isso não é difícil. Basta que tenhamos incentivos para isso. Do jeito que está pouco ou nada de duradouro se conseguirá. Precisamos nos reunir em torno das propostas que estão em vigor e reavaliá-las, ou até mesmo, simula-las, e em caso de desaprovação, desenvolver outras e mais outras propostas. Precisamos criar e amadurecer uma “cultura do projeto” em nossas administrações públicas e nessa cultura, extrair o supra-sumodas melhores propostas e começar a realizá-las.
Hoje em dia possuímos ferramentas que os nossos antepassados urbanistas jamais imaginaram. Com os avanços da computação, podemos colocar todo um complexo urbano no meio virtual e simulá-lo em tempo real. Com os meios de telecomunicação podemos contatar os envolvidos diretos nas intervenções e saber suas opiniões e sugestões. Podemos receber orientações de urbanistas de outros continentes, sem precisar atravessar uma rua para isso! Então, o que justifica tanta falta de produção? Indiferença e irresponsabilidade. Fora isso, eu não vejo outra justificativa. E se manterem-se tais paradigmas, o caos urbano entrará em um processo de desenvolvimento em que as gerações futuras talvez não possuam força para deter.

03/01/2009

POR QUE BELÉM ESTÁ FEIA?

Prédio da Casa Outeiro, onde está hoje o Edifício Manoel Pinto da Silva.

Muitos de nós, arquitetos, ou mesmo um cidadão comum, já se fez essa pergunta um dia, não e verdade? Para o cidadão comum, responder a essa questão pode não ser tão simples. Mas para nós, ela é bastante clara: Belém, a gloriosa cidade do passado, a ex-jóia da Amazônia, a Paris dos Trópicos, é hoje uma caricatura, um cancro, um colar sem pérolas, uma cidade sem alma, uma cidade sem estilo, simplesmente por que lhe falta a Boa Arquitetura. Sim caros amigos e colegas leitores, Belém ainda não possui a Boa Arquitetura!
Perdoem-me os entusiastas, mas a Belém de hoje não tem estilo algum. Nem contemporâneo, nem histórico!
Belém era bonita por que possuía uma arquitetura que estava de acordo com seu ideal de metrópole. E essa arquitetura tinha um estilo. Um estilo cuja caricatura, ainda se encontra mais ou menos pulverizado pela cidade. E, por incrível que ainda possa parecer, é o único exemplo da Boa Arquitetura que ainda p
odemos contemplar. O resto é pano de fundo.
Agora, vamos aos culpados... Primeiramente diagnosticar os erros.
O primeiro erro é ter-mos permitido a degradação da nossa arquitetura antiga. O segundo, após essa degradação, é não termos tido a capacidade de substituir a bela arquitetura antiga, por uma bela arquitetura moderna e contemporânea! Não ter passado jamais será pior que não ter presente! E em relação à arquitetura, por pouco não perdemos todo o passado e o presente ainda não nos convenceu.
Sou capaz de cometer uma grave blasfêmia aqui ao afirmar que preferiria ver toda a arquitetura antiga no subsolo de uma arquitetura contemporânea rica em estética, filosofia e arte! O que eu não consigo admitir é como conseguimos ter a capacidade de viver nos escombros de uma rica (pra não dizer riquíssima e maravilhosa) arquitetura histórica sem que nossos arquitetos tenham se esforçado pra realizar uma arquitetura pelo menos à altura (pra não dizer melhor) da que tínhamos no passado! Ou seja, acabou-se com nossa bela arquitetura antiga... E ela não foi substituída. Pelo menos ainda.

Grande Hotel, que foi demolido pora dar lugar ao Hilton Hotel.

(Um pequeno parêntese)
Você talvez possa estar pensando: "Ah, Junio, falar é mais fácil do que fazer..." Por um lado eu concordo. Para quem "não está no mercado" (por favor, entenda-se "não estar no mercado" como um estado de ser, assim como "estar no mercado" é um outro estado de ser) pode ser mais fácil ficar observando o que "os outros" estão fazendo, não é mesmo? E além de observar, "soltar o malho", "meter o pau" na obra alheia.
Isso pode ser até mesmo uma prática oriunda de uma perversão particular. Uma perversão originada no prazer de desmerecer o trabalho dos "outros". Ou, pior, uma prática oriunda de uma amargura profissional pessoal, uma decepção com a própria profissão, uma retaliação pessoal contra alguém ou contra um grupo de pessoas, e, muito pior e desgraçadamente infeliz ainda, uma prática oriunda de uma falta de estima profissional e intelectual...
Amigos... Falar talvez seja mais fácil. Porém, falar com embasamento teórico, com imparcialidade, com conhecimento de causa, com formação, com liberdade, respeito e, principalmente, com responsabilidade, não é tão fácil quanto fazer! E quem fala e escreve com tais embasamentos, certamente que merece respeito, assim como quem faz e pratica com embasamento também merece o mesmo respeito! Agora, quem fala, escreve ou pratica sem embasamento algum, como se fosse um pajé ou curandeiro qualquer, esse não merece nem vômitos ou excrementos, quanto mais respeito.
Sou um arquiteto que ama sua profissão. Que se emociona ao falar ou escrever sobre ela. Que sabe admirar, assim como questionar o belo e o feio. Um profissional que procura sempre, antes de tudo, o respeito e a admiração pelos outros colegas. Porém, se um colega prefere jogar no lixo sua oportunidade de estar no mercado, atuando, criando obras pífias e sem valor algum, sinceramente, esse colega está contribuindo para a mediocridade e a pobreza da nossa arquitetura... E isso não pode ser perdoado! E aquele que porventura possua o "dom" da teoria e da crítica, por favor, escreva! Procuro sempre considerar que: se você não está fazendo arquitetura, pelo menos deve estar pensando nela e se está pensado nela e está pensando bem, deve escrever.


Armazéns da Alfândega, onde hoje está parte da Estação das Docas.

(Fechando o parêntese e voltando ao assunto)

Agora que conseguimos muito facilmente destacar a resposta e o primeiro e o segundo (e mais grave) erro (por que Belém está feia?), vamos agora destacar claramente os verdadeiros e únicos culpados.
O primeiro culpado é o Poder Público e podemos melhor chamar esse poder público de Prefeitura e Estado. E para uma melhor classificação, podemos desmembrar essa responsabilidade pelas diversas secretarias públicas. Ou seja, há um sistema público que desqualificou nossa arquitetura antiga, que destruiu nosso patrimônio inescrupulosamente. E isso se resume em:


1 - Prefeitos e governadores incultos que permitiram a destruição do patrimônio
.
2 - Prefeitos e governadores desonestos que barganharam com o patrimônio cultural, comercializando-o aos seus bel-prazeres
.
3 - Prefeitos, governadores e secretários da mais baixa qualificação para o gerenciamento e a administração do patrimônio cultural, social e artístico de um povo
.

Esses são os principais culpados pelo fato de Belém se encontrar tão feia, abandonada e sem interesse arquitetônico-artístico nacional e internacional
.
Além desses existem os outros culpados. E adivinhem quem são eles. Aha! Errou! Somos nós, meu amigo, os arquitetos e urbanistas
!
Somos por vários e vários motivos
.
Vou apenas destacar os mais claros: Somos culpados por não termos realizado projetos que estivessem à altura (estética, conceitual e artisticamente falando) das obras históricas. Somos culpados por não termos tido a capacidade de ter criado um estilo forte no modernismo ou na arquitetura contemporânea (para essa ainda há tempo). Somos culpados por sermos tão desunidos. E por causa dessa desunião, não termos força para antes questionar a destruição da arquitetura do passado. E, também, por causa dessa desunião, não termos força para, agora, lutarmos por uma maior presença nas decisões sobre as intervenções na cidade
.
Somos culpados por ainda não termos um órgão onde possamos nos reunir, onde possamos pensar e decidir por quais caminhos tomar. Somos culpados por abandonarmos nossos recém-formados ao caminho da incerteza. Somos culpados por nos satisfazermos com propagandas enganosas, com prêmios e destaques adquiridos “via boleto bancário”, com presenças em revistas e jornais não especializados, escritos e mantidos por editores e jornalistas sem conhecimento profundo de arquitetura, que só visam o comércio e a troca de favores. Somos culpados por sermos tão vaidosos... E na nossa vaidade, esquecemos que somos muito menor, sim, muito menor que a coletividade de uma cidade. Somos muito menores que a Arquitetura e que somente através dela podemos conquistar a coletividade e através dessa conquista verdadeira possamos ser grandes e reconhecidos realmente.
Precisamos acreditar no poder da Arquitetura. Precisamos acreditar que os arquitetos são os únicos que podem mudar toda a paisagem de uma cidade do pior para o melhor! E que todas as cidades famosas e interessantes do mundo têm uma arquitetura à altura.
Portanto, no dia em que os governantes, homens com o verdadeiro poder nas mãos, e os arquitetos, homens com as verdadeiras ferramentas nas mãos, reconhecerem seus erros e limitações, nesse dia Belém dará os primeiros passos rumo a um espelho onde se verá bela e reluzente... E como no passado, nós teremos orgulho de viver aqui.

***


29/12/2008

RAUL RAMOS - Com ele se vai um pedaço da jovem e promissora arquitetura contemporânea de Belém.

Nunca pensei que fosse, tão cedo, escrever uma homenagem póstuma a um arquiteto da minha cidade. Nunca pensei que fosse logo para o Raul. Não somente por sua juventude, mas, principalmente, por que não o conhecia. Porém, acredito que as opiniões de quem você nem conhece sejam as que podem estar mais próximas da verdade, principalmente no que diz respeito aos elogios.
Mesmo não sendo próximo ou amigo de Raul Ramos, eu, como profissional de arquitetura e como alguém que leva a sério o ato de pensar, escrever e criticar Arquitetura, alguém que planeja fazer disso uma atuação constante e bem-sucedida em sua vida profissional, não poderia deixar de manifestar meus pêsames por essa perda e tentar escrever algumas linhas sobre ela, o que ela significa pra mim e o que deveria significar para a comunidade de arquitetos locais.
Quando iniciei o curso de arquitetura não demorou muito pra começar a buscar "meus he
róis", sim, aqueles que fazem a Boa Arquitetura e de certa forma servem de exemplo aos mais novos. Falávamos da Síntese. Falávamos de Raul (embora nosso círculo sempre falasse mais dos arquitetos europeus).
Lembro que na época a Síntese era a única empresa de arquitetura que eu respeitava. Tinha mesmo vontade de trabalhar lá. Por quê? Simples, porque lá se fazia a tal da Boa Arquitetura, não uma arquitetura genial ainda, mas uma arquitetura que, inteligentemente, se libertou dos antigos (e ainda atuais) modelos de edificação vertical, baseados em caixas de sapatos (que alguns colegas chamam vulgarmente de "feijão-com-arroz")
A Síntese praticava a ousadia. E a ousadia é o estopim para Arquitetura Genial! E afirmo seguramente mais: O Raul conseguiu arrastar toda a arquitetura de edificação vertical em
sua direção. Uns passaram mesmo a copiá-lo cinicamente. Outros, a negá-lo descarada e publicamente (lembro uma propaganda de uma construtora local que dizia: "Nosso nome não é uma 'Síntese'. Temos nome e sobre-nome!"). Resumindo, a arquitetura da Síntese, por conseguinte, de Raul Ramos, mudou o panorama da nossa produção local. Principalmente na área de edificação vertical.
Sendo Raul um arquiteto da nova geração e ainda muito novo (48 anos), perdemos um dos arquitetos que, com toda certeza, iria amadurecer mais e nos ajudar a recuperar o nosso passado rico em estética. Não que isso seja próprio de um "messias arquitetural", mas em talentos jovens, o processo de amadurecimento e consolidação de um estilo e estética conceitual é um processo natural, afinal, quem tem inteligência e genialidade, cresce com elas.
Lembro mais: de não ter visto um outdoor com o Raul a receber um prêmio ou mensão empr
esarial (que com certeza ele deve ter recebido). Porém, ja ví inúmeros arquitetos com trabalhos muito fracos (que passam até despercebidos) recebendo premiações de "revelações" e "arquitetos do ano" e semblantes cínicos estampados em outdoors pela cidade.
Alias, falando nisso, eu dificilmente vejo arquitetos que merecem esses prêmios os recebendo... Vejo até garotos que desmamaram ontem mencionados como "revelações empresariais do ano" em arquitetura, mas um Aurélio Meira, um Coelho Bassalo ou um Herlom Oliveira, dificilmente se vê. Isso prova que há algo de errado nesse meio que "promove" a "arquitetura" local. Quem é bom deve ser bom e aparecer o ano inteiro, e não somente de forma sazonal em premiações questionáveis! E Raul era um dess
es que deveria aparecer sempre, seja com trabalhos, seja com publicações.
Lamento por essa perda. Lamento verdadeira e profundamente.
Espero que os que aí ainda se encontrem, façam arquitetura não somente com seriedade. Mas, também, com filosofia, arte e ousadia!
Absorvamos esses legados caros amigos e leitores! Coloquemo-os na nossa história edificada e realizemos também a boa e genial Arquitetura.
Descansa em Paz Raul.
Que estejas ao lado de Deus em sua obra arquitetônica no universo.


















Kostas, 29 de Dezembro de 2008

26/12/2008

MINHA LUTA, TUA LUTA, NOSSA LUTA.

Eu luto por uma nova arquitetura para a cidade.
Eu luto por uma nova forma de pensar o espaço e seu invólucro.
Eu luto por uma arte que nos recupere o orgulho de morar e sermos cidadãos.


Foto: NOX - Lars Spruibroek

Eu luto por um novo skyline.
Eu luto por um "exterior design".

Eu luto por uma passeio pleno de admiração.


Foto: MVRDV

Luto pela ousadia de conceito.
Luto pela ousadia do desenho.
Eu luto pela ousadia de construção.


Eu luto por uma arquitetura como arte.
Eu luto por uma arquitetura como tradição.
E, se por ventura, encontrar-me sem armas à mão,
Usarei o pensamento, a palavra e a emoção.

Lute, irmão!
Aproveite tua oportunidade.
Estejas no mercado ou não,
Faças arquitetura com emoção!


Foto: Das-monsta - Philipp Johnson

"A estrutura foi feita pra sustentar; A arquitetura pra emocionar."
Le Corbusier

05/11/2008

A ESSÊNCIA DA ARQUITETURA II : O Poder da Função

A necessidade é a matriz de toda forma.
A necessidade que é própria de toda coisa material,
De tudo que existe.
Toda substância é direcionada para uma determinada função.
E a partir dessa função a substância toma forma.

A Função é a alma de um edifício.
Jamais vista ou tocada, porém sentida e experimentada.
Um processo íntimo entre usuário e espaço.
Processo este no qual os amantes da forma não tomam parte.

Para sentir a Função é preciso entrar nela.
Percorrer sua interioridade, imerso no ambiente.
É preciso ser cúmplice no seu reconhecimento.
E acusador na constatação de sua ausência.

A Função é o selo que o cabalista coloca no seio do Golem.
Dando-lhe vida e movimento.
O arquiteto, este cabalista que manipula o espaço-barro,
Sopra no interior da forma sua sabedoria: Função.

O espírito do Arquiteto pairava sobre as águas.
A terra era vazia e sem forma. A terra era sem Função!
O Arquiteto disse: faça-se a Função! O primeiro dia da Criação.

A Função é, pois, o silêncio criador e mantenedor da forma.
Sua manipulação é o segredo velado dos modernistas.
Aos iletrados resta o fracasso e a indiferença.
Aos eruditos a forma segue a Função!











Kostas 05/11/2008

04/11/2008

A ESSÊNCIA DA ARQUITETURA I : O Poder da Forma

A superfície das coisas esconde suas essências.
Mas é na superfície que os olhos pousam e caminham.
Pontos, linhas, curvas, retas, superfícies, volumes, concavos e convexos...
Nada escapa do olhar.

Podemos ver e não tocar.
Mas diante do Poder da Forma,
Os olhos vêem e tocam.

A primeira experiência do homem com o objeto adorado é visual:
O primeiro amor, o príncipe encantado,
A princesa com cachos dourados, a virgem com olhos de mel,
O ídolo sobre o templo, a imagem que peregrina,
O barro que se transforma em vaso,
O vaso que dá de beber ao sedento.

O peão se extasia ao passar da musa.
Todo seu desejo se transforma em som: fiu fiu!
O turista queda-se diante do Guggenhein Bilbao.
E mesmo quem distante viu balbucia: Oh!

Como pode algo esconder a essência e, ao mesmo tempo, transformar-se em essência?
Somente o Poder da Forma o pode!
Somente ele faz a pedra emitir som.
Somente ele pode fazer o estático mover-se em nossa direção.
E ficar pra sempre na memória.


Kostas, 4/11/2008