Tenho compaixão pelos viajantes; daqueles que tomam um avião ou navio, um ônibus ou um carro e saem do estado rumo a uma dessas cidades evoluídas. Nova Iorque, Chicago, Londres, Estocolmo, Frankfurt, Paris, São Paulo, Buenos Aires, etc. Frustrante sair de Belém, visitar esses lugares e voltar pra cá. “Frustrante por quê? Viajar é ótimo!” Concordo, mas duvido que você que já viajou muito ou pouco, conheceu pelo menos um desses lugares, ou outros que tenha omitido, jamais tenha experimentado a realidade de estar no primeiro mundo e ter que retornar ao terceiro. Ver os dias da visita findarem como areia nas mãos durante a ventania... E a terrível sensação de “quero mais”.
Bom, procurarei ser mais claro. Para um ribeirinho, que vive em uma casa sobre o rio em São Domingos do Capim por exemplo, visitar Belém é o máximo. Ruas imensas, carros em disparada, ônibus superlotados, pessoas indo e vindo. Para o ribeirinho, pouco importa se Belém tem metrô ou não. Pouco importa se as ruas estão congestionadas, se o nosso maior “arranha-céu” ainda está em construção e tem apenas 40 andares. Para o ribeirinho, volto a dizer, pouco importa se os camelôs pervertem as calçadas, poluem a entrada da cidade, se os “ricos” fazem fila dupla tranquilamente para pegar seus pequeninos (às vezes marmanjos) na porta da escola (compreensível devido à violência, porém inadequado devido à desorganização) em ruas de tráfego intenso. Pouco importa o balé dos lixos após o expediente na Presidente Vargas. Pouco importa para ele, que deixou sua casa no meio do nada para visitar um parente agonizando num desses hospitais públicos desestruturados, que Belém tenha todos esses defeitos, toda essa pequenez. Para ele, nossa cidade é um exemplo de lugar desenvolvido. Mais ou menos consciente da sua ignorância, quem é ele para questionar o estado das coisas?
Todavia, para mim, que já visitei muitos lugares, sem falar nos que conheço pela mídia, Belém é uma cidade pequena, atrasada, que parece caminhar na contramão do tempo. Temos uma população do tamanho da de Porto Alegre (mais ou menos um milhão e meio de habitantes), mas nossa estrutura urbana é de uma cidade de 200 mil habitantes. A mais ou menos 50 anos Belém cresceu assustadoramente em número de habitantes mas nossa estrutura urbana, seus equipamentos e mobiliários, parece ter permanecida a mesma que satisfazia a colônia portuguesa que aqui vivia no século 19. Nosso maior herói ainda é um arquiteto-engenheiro que viveu nesse período. Para termos uma idéia, nos anos 1930, Nova Iorque já possuía edifícios com mais de 40 andares e uma rede de circulação ferroviária no subsolo da cidade. Eu disse anos 30 do século passado!
Por incrível que pareça, a vida comercial é um dos motores da “renovação” da nossa cidade! Por causa de um shopping, uma passarela em estilo “contemporâneo” está sendo construída no entroncamento. Por causa de outro shopping, estão construindo uma ponte sobre o canal e em função de uma loja foram retirados os camelôs da Presidente Vargas (sem revolver a questão que foi “colocada debaixo do tapete” entulhando-os nas ruas transversais). A iniciativa privada, a vida comercial, parece movimentar a seu bel-prazer, a cidade para frente ou para trás, de acordo com o que lhe é mais conveniente.
A ignorância é realmente uma benção... Se eu não tivesse conhecido nenhum desses lugares, estaria satisfeito. Belém seria do tamanho das minhas pretensões! Belém seria como o mapa do videogame que brinco com meu sobrinho: Não me interessa ir além, pois o que eu tenho me basta. Feliz é o ribeirinho, que vem resolver problemas na cidade grande e sente saudades da vida tranqüila no meio do mato! Triste sou eu, que vou até Londres e quero mais é ficar por lá!
É, talvez esteja lendo muito Koolhaas... Basta, preciso de um pouco de ignorância.
Prezado Junio,
ResponderExcluirAcontece que a iluminação é um processo sem volta. E essa é uma das causas do êxodo de massa crítica de nossa cidade. Como permanecer 'aqui', depois de conhecer um 'lá' muito melhor?
Concordo com você: é lamentável que a renovação de Belém seja movida pela iniciativa privada.
Discordo de você: para mim, a ignorância não é uma bênção, apesar das angústias provocadas pela ampliação de nossos horizontes culturais.
Abraço
Obrigado Wagner pela sua contribuição ao blog. Só ressaltando que não procurei fazer uma apologia à ignorancia institucionalizada, que infelizmente, já é uma realidade. Mas fiz uma metáfora da limitação do conhecimento humano como condição para nos acomodarmos a uma realidade que nos é aceitável. Como voce escreveu, a ampliação de nossos horizontes culturais pode ser uma causa de sofrimento para alguns, não para outros. Tudo depende da forma como voce se relaciona com o ambiente urbano e a cultura da sociedade que voce vive. O que eu chamo atenção veladamente no texto, é que, embora tenhamos milhares de viajantes internacionais em nossa capital, vejo muito poucas manifestaçoes destes para melhorar nosso ambiente urbano. Muitos desses que tem seus "horizontes ampliados" trabalham para a manutanção do status quo de atrazo, ou convertem seu voto em algo inutil, ou ainda, simplesmente não aproveitam para fazer valer seus "horizontes" quando estão em alguma secretaria pública como diretores, em alguma faculdade lecionando (seja em que curso for) ou mesmo em uma coluna de jornal. As pessoas "viajadas" vivem em Belém com uma certa tranquilidade... Felizmente não são todos.
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