Muitos de nós, arquitetos, ou mesmo um cidadão comum, já se fez essa pergunta um dia, não e verdade? Para o cidadão comum, responder a essa questão pode não ser tão simples. Mas para nós, ela é bastante clara: Belém, a gloriosa cidade do passado, a ex-jóia da Amazônia, a Paris dos Trópicos, é hoje uma caricatura, um cancro, um colar sem pérolas, uma cidade sem alma, uma cidade sem estilo, simplesmente por que lhe falta a Boa Arquitetura. Sim caros amigos e colegas leitores, Belém ainda não possui a Boa Arquitetura!
Perdoem-me os entusiastas, mas a Belém de hoje não tem estilo algum. Nem contemporâneo, nem histórico!
Belém era bonita por que possuía uma arquitetura que estava de acordo com seu ideal de metrópole. E essa arquitetura tinha um estilo. Um estilo cuja caricatura, ainda se encontra mais ou menos pulverizado pela cidade. E, por incrível que ainda possa parecer, é o único exemplo da Boa Arquitetura que ainda podemos contemplar. O resto é pano de fundo.
Agora, vamos aos culpados... Primeiramente diagnosticar os erros. O primeiro erro é ter-mos permitido a degradação da nossa arquitetura antiga. O segundo, após essa degradação, é não termos tido a capacidade de substituir a bela arquitetura antiga, por uma bela arquitetura moderna e contemporânea! Não ter passado jamais será pior que não ter presente! E em relação à arquitetura, por pouco não perdemos todo o passado e o presente ainda não nos convenceu.
Sou capaz de cometer uma grave blasfêmia aqui ao afirmar que preferiria ver toda a arquitetura antiga no subsolo de uma arquitetura contemporânea rica em estética, filosofia e arte! O que eu não consigo admitir é como conseguimos ter a capacidade de viver nos escombros de uma rica (pra não dizer riquíssima e maravilhosa) arquitetura histórica sem que nossos arquitetos tenham se esforçado pra realizar uma arquitetura pelo menos à altura (pra não dizer melhor) da que tínhamos no passado! Ou seja, acabou-se com nossa bela arquitetura antiga... E ela não foi substituída. Pelo menos ainda.
(Um pequeno parêntese)
Você talvez possa estar pensando: "Ah, Junio, falar é mais fácil do que fazer..." Por um lado eu concordo. Para quem "não está no mercado" (por favor, entenda-se "não estar no mercado" como um estado de ser, assim como "estar no mercado" é um outro estado de ser) pode ser mais fácil ficar observando o que "os outros" estão fazendo, não é mesmo? E além de observar, "soltar o malho", "meter o pau" na obra alheia. Isso pode ser até mesmo uma prática oriunda de uma perversão particular. Uma perversão originada no prazer de desmerecer o trabalho dos "outros". Ou, pior, uma prática oriunda de uma amargura profissional pessoal, uma decepção com a própria profissão, uma retaliação pessoal contra alguém ou contra um grupo de pessoas, e, muito pior e desgraçadamente infeliz ainda, uma prática oriunda de uma falta de estima profissional e intelectual...
Amigos... Falar talvez seja mais fácil. Porém, falar com embasamento teórico, com imparcialidade, com conhecimento de causa, com formação, com liberdade, respeito e, principalmente, com responsabilidade, não é tão fácil quanto fazer! E quem fala e escreve com tais embasamentos, certamente que merece respeito, assim como quem faz e pratica com embasamento também merece o mesmo respeito! Agora, quem fala, escreve ou pratica sem embasamento algum, como se fosse um pajé ou curandeiro qualquer, esse não merece nem vômitos ou excrementos, quanto mais respeito.
Sou um arquiteto que ama sua profissão. Que se emociona ao falar ou escrever sobre ela. Que sabe admirar, assim como questionar o belo e o feio. Um profissional que procura sempre, antes de tudo, o respeito e a admiração pelos outros colegas. Porém, se um colega prefere jogar no lixo sua oportunidade de estar no mercado, atuando, criando obras pífias e sem valor algum, sinceramente, esse colega está contribuindo para a mediocridade e a pobreza da nossa arquitetura... E isso não pode ser perdoado! E aquele que porventura possua o "dom" da teoria e da crítica, por favor, escreva! Procuro sempre considerar que: se você não está fazendo arquitetura, pelo menos deve estar pensando nela e se está pensado nela e está pensando bem, deve escrever.
(Fechando o parêntese e voltando ao assunto)
Agora que conseguimos muito facilmente destacar a resposta e o primeiro e o segundo (e mais grave) erro (por que Belém está feia?), vamos agora destacar claramente os verdadeiros e únicos culpados.
O primeiro culpado é o Poder Público e podemos melhor chamar esse poder público de Prefeitura e Estado. E para uma melhor classificação, podemos desmembrar essa responsabilidade pelas diversas secretarias públicas. Ou seja, há um sistema público que desqualificou nossa arquitetura antiga, que destruiu nosso patrimônio inescrupulosamente. E isso se resume em:
1 - Prefeitos e governadores incultos que permitiram a destruição do patrimônio.
2 - Prefeitos e governadores desonestos que barganharam com o patrimônio cultural, comercializando-o aos seus bel-prazeres.
3 - Prefeitos, governadores e secretários da mais baixa qualificação para o gerenciamento e a administração do patrimônio cultural, social e artístico de um povo.
Esses são os principais culpados pelo fato de Belém se encontrar tão feia, abandonada e sem interesse arquitetônico-artístico nacional e internacional.
Além desses existem os outros culpados. E adivinhem quem são eles. Aha! Errou! Somos nós, meu amigo, os arquitetos e urbanistas!
Somos por vários e vários motivos.
Vou apenas destacar os mais claros: Somos culpados por não termos realizado projetos que estivessem à altura (estética, conceitual e artisticamente falando) das obras históricas. Somos culpados por não termos tido a capacidade de ter criado um estilo forte no modernismo ou na arquitetura contemporânea (para essa ainda há tempo). Somos culpados por sermos tão desunidos. E por causa dessa desunião, não termos força para antes questionar a destruição da arquitetura do passado. E, também, por causa dessa desunião, não termos força para, agora, lutarmos por uma maior presença nas decisões sobre as intervenções na cidade.
Somos culpados por ainda não termos um órgão onde possamos nos reunir, onde possamos pensar e decidir por quais caminhos tomar. Somos culpados por abandonarmos nossos recém-formados ao caminho da incerteza. Somos culpados por nos satisfazermos com propagandas enganosas, com prêmios e destaques adquiridos “via boleto bancário”, com presenças em revistas e jornais não especializados, escritos e mantidos por editores e jornalistas sem conhecimento profundo de arquitetura, que só visam o comércio e a troca de favores. Somos culpados por sermos tão vaidosos... E na nossa vaidade, esquecemos que somos muito menor, sim, muito menor que a coletividade de uma cidade. Somos muito menores que a Arquitetura e que somente através dela podemos conquistar a coletividade e através dessa conquista verdadeira possamos ser grandes e reconhecidos realmente.
Precisamos acreditar no poder da Arquitetura. Precisamos acreditar que os arquitetos são os únicos que podem mudar toda a paisagem de uma cidade do pior para o melhor! E que todas as cidades famosas e interessantes do mundo têm uma arquitetura à altura.
Portanto, no dia em que os governantes, homens com o verdadeiro poder nas mãos, e os arquitetos, homens com as verdadeiras ferramentas nas mãos, reconhecerem seus erros e limitações, nesse dia Belém dará os primeiros passos rumo a um espelho onde se verá bela e reluzente... E como no passado, nós teremos orgulho de viver aqui.
***



Excelente!!
ResponderExcluirQueria te ver como secretário, na SEURB!
Estou adorando te ver mais ativo nas postagens. Estarei lincando teu artigo em novo post. É muito bom ver outras pessoas dizendo o que acreditamos.
Obrigado, Claudia.
ResponderExcluirPode divulgar sim. Se vc acha legal, entao fique a vontade pra soltar por aí. ;)
Quanto a ser secretário... Bom, creio que isso não passa pela minha cabeça, pois, se fosse, estaria no meio de um circulo vicioso e talvez muito pouco agiria segundo minhas convicções. Talvez como prefeito ou governador voce tenha um pouco mais de possibilidades, e como tambem não desejo tal posto, fico na esperança que algum corajoso herói o faça. Bom, quem sabe minhas palavras possam "envenenar" os ouvidos dos que estão no poder.
Obrigado mais uma vez pelo seu apoio.
Caro colega,
ResponderExcluirEntendo a descrença na classe, tanto política quanto profissional, mas esqueces que falta um elemento nessa equação: O povo de Belém. O belo, para qualquer ensaísta da Estética (Kantm, Platão..) é um conceito derivado de uma série de elementos morais contidos no seio de uma sociedade. Belém é feia para quem estudou, pensa ou realiza arquitetura, mas será que compartilha dessa opinião o povo que para em fila dupla, que joga lixo na rua, que urina na mangueira ou aos sumanos que constróem as monumentais aberrações do centro histórico? Reflita..
Escolhi o blog pra receber o Prêmio Dardos. Dê uma olhada na postagem:
ResponderExcluirhttp://marcosdotempo.blogspot.com/2009/01/dardos.html
Caro colega e amigo Acilon.
ResponderExcluirGostaria de agradecer-lhe o comentário.
Bom, antes de começar a escrever essa crônica sobre a "feiura" atual da cidade, procurei refletir sobre as responsabilidades que o povo possui nesse processo. Constatei que não poderia incluir diretamente o povo nessa questão. Por um unico e simples motivo: o povo, isto é, as massas urbanas, são um produto daquilo que recebem dos que os governam. Se os governantes educam e orientam, e tambem, fiscalizam seus processos educativos, o povo tem mais chances de agir positivamente em relação ao espaço e a aparencia da cidade, mantendo-os e zelando por eles, por que aprenderam e devido terem aprendido, transformaram esse aprendizado em tradição. O povo mesmo, isoladamente, não será capaz disso. O povo é uma turba desorientada em busca de orientação. Se falta essa orientação do Poder Publico, não podemos esperar pelo povo obtê-la sozinho.
Por outro lado, nós arquitetos não precisamos do povo para projetar. Precisamos do Poder Publico e tambem da iniciativa privada em uma certa escala, pois são estes, unica e exclusivamente, os responsaveis por toda e quaisquer mudanças e intervenções na aparencia de uma cidade. Ao meu ver, ao povo só resta a educação para manter e o gozo por viver em um local estéticamente agradável (considerando a estética em suas concepções filosóficas ou mesmo na simples concepção do que é belo para as pessoas, afinal, é dificil crer que um porco encontre beleza na sujeira... Ele vive nela de forma totalmente inconsciente, e faz dessa inconsciencia seu habitat).
Obrigado pelo comentário.
Querida amiga e colega Claudia.
ResponderExcluirObrigado por ofercer-me esta premiação. Fico muito satisfeito por ver seu entusiasmo por este meu humilde blog. Gostaria de corresponder com meu respeito e admiração.
Abraços e bom trabalho pra você.